Data Factory no Fabric: como montar pipelines de dados
Guia prático de Data Factory no Fabric: Copy Data, Dataflows Gen2, controle de fluxo, agendamento por gatilho e a diferença entre pipeline e dataflow.
O dado chega no Fabric, mas alguém precisa orquestrar a chegada
Quando uma empresa adota o Microsoft Fabric, a primeira frustração raramente é o Power BI ou o Lakehouse. É a pergunta banal e inevitável: como faço o dado entrar aqui de forma confiável, no horário certo, sem alguém rodando script na mão toda manhã. É esse buraco que o Data Factory no Fabric preenche. Ele é a camada de ingestão e orquestração da plataforma, o mecanismo que puxa dados de um banco SQL, de uma API ou de um blob no Azure e os coloca dentro do OneLake, sem intervenção humana e com tratamento de erro decente.
Neste artigo eu vou direto ao que importa para quem vai colocar a mão na massa: a atividade Copy Data para ingestão, os Dataflows Gen2 para transformar, o controle de fluxo com condições e loops, como agendar e disparar por gatilho, e a diferença prática entre pipeline e dataflow, que é a dúvida que mais trava projeto no início. Se você ainda está avaliando a plataforma como um todo, vale ler antes o nosso guia sobre o que é o Microsoft Fabric e quando vale a pena. Aqui o foco é a execução.
Data Factory no Fabric não é o Azure Data Factory, e isso muda coisas
Vale começar desfazendo uma confusão que gera decisão errada. O Data Factory dentro do Fabric herda a linguagem visual do Azure Data Factory e do Power Query, mas ele roda dentro da capacidade do Fabric, grava naturalmente no OneLake e conversa nativamente com Lakehouse, Warehouse e os modelos semânticos do Power BI. Não é um serviço separado que você contrata à parte: faz parte do mesmo workspace onde vivem seus relatórios.
Na prática, ele entrega dois artefatos principais. O primeiro é o pipeline de dados, que orquestra: define a sequência de atividades, o que roda antes, o que roda depois, o que fazer quando algo falha. O segundo é o Dataflow Gen2, que transforma: usa o Power Query para limpar, tipar, juntar e reformatar os dados. Confundir os dois papéis é o erro mais comum de quem vem de outro ecossistema.
A atividade Copy Data resolve 80% da ingestão
Se existe uma atividade que você vai usar em quase todo pipeline, é a Copy Data. Ela faz uma coisa só, e faz bem: move dados de uma origem para um destino. A origem pode ser um banco relacional (SQL Server, PostgreSQL, Oracle), um serviço em nuvem, uma API REST, arquivos em blob storage ou planilhas. O destino tipicamente é um Lakehouse ou um Warehouse dentro do Fabric.
O fluxo de configuração é direto:
- Defina a conexão de origem. Você cria ou reaproveita uma conexão com credenciais para o sistema de onde o dado vem. Aqui entram os cuidados de segurança e o gateway, quando a fonte é on-premises.
- Escolha o que copiar. Uma tabela inteira, uma query específica ou arquivos por padrão de nome. Para cargas incrementais, você parametriza um filtro por data ou por um identificador crescente.
- Defina o destino. Lakehouse para dados em formato de arquivo e Delta, Warehouse quando você quer uma tabela SQL relacional consultável.
- Ajuste o mapeamento. O Fabric tenta inferir o esquema, mas em cargas sérias você revisa tipos e nomes de coluna manualmente.
O ponto honesto: a Copy Data é ingestão bruta, não transformação. Ela move o dado como ele é. Tentar fazer regra de negócio complexa dentro dela é forçar a ferramenta. Copie primeiro, transforme depois. Essa separação é o que mantém o pipeline legível quando ele cresce de três para trinta atividades, e é uma disciplina de engenharia de dados que evita retrabalho seis meses à frente.
Dataflows Gen2 são o Power Query fazendo o trabalho pesado
Depois que o dado bruto chegou, alguém precisa limpar. É aí que entram os Dataflows Gen2. Se você já usou o Power Query no Power BI ou no Excel, a interface vai ser familiar de imediato: as mesmas etapas aplicadas, a mesma linguagem M por baixo, a mesma lógica de ir transformando passo a passo e vendo o resultado.
A diferença é o destino e a escala. Um Dataflow Gen2 não termina alimentando só um relatório: ele grava o resultado transformado em um destino de dados, como uma tabela no Lakehouse ou no Warehouse, para qualquer workload consumir. É reutilizável e centraliza a lógica de transformação num lugar só, em vez de espalhar a mesma limpeza em cada relatório do Power BI.
Onde o Dataflow Gen2 brilha:
- Limpeza e padronização: remover linhas inválidas, corrigir tipos, padronizar texto, tratar nulos.
- Junções e combinações: unir tabelas de origens diferentes com merge e append.
- Colunas derivadas: cálculos, categorizações e chaves compostas antes de o dado chegar ao modelo.
- Transformação acessível: um analista que domina Power Query consegue construir sem escrever código, o que reduz a fila do time de engenharia.
O ponto de atenção que eu sempre levanto: o Power Query é ótimo para produtividade e ruim quando usado como motor de processamento distribuído para volumes gigantes. Para transformar milhões de linhas com lógica pesada, um notebook Spark no Lakehouse costuma ser mais eficiente. O Dataflow Gen2 é a ferramenta certa para a maioria dos casos de médio porte, não para todos.
Pipeline orquestra, dataflow transforma: a distinção que organiza tudo
Essa é a frase que eu repito em todo kickoff no Fabric, porque resolve metade das dúvidas de arquitetura. O pipeline é o maestro. O dataflow é o instrumentista. Um comanda a ordem e o momento. O outro molda o dado.
Na prática, os dois vivem juntos: um pipeline frequentemente chama um Dataflow Gen2 como uma de suas atividades, no meio de uma sequência maior. O pipeline diz "primeiro copie os dados da origem, depois rode este dataflow de limpeza, depois atualize o modelo semântico, e se qualquer passo falhar, me avise". O dataflow apenas executa a limpeza quando chamado.
A tabela abaixo resume a diferença de papéis:
| Aspecto | Pipeline de dados | Dataflow Gen2 |
|---|---|---|
| Função principal | Orquestrar e sequenciar | Transformar e limpar |
| Tecnologia base | Atividades e controle de fluxo | Power Query / linguagem M |
| Move dados brutos | Sim, via Copy Data | Não é o foco |
| Aplica regra de negócio | Não, delega | Sim, é o forte |
| Controle de fluxo (loop, condição) | Sim | Não |
| Agendamento próprio | Sim | Sim, mas normalmente orquestrado pelo pipeline |
| Quem costuma construir | Engenheiro de dados | Analista ou engenheiro |
A regra prática: se a pergunta é "quando e em que ordem", é pipeline. Se a pergunta é "como o dado deve ficar", é dataflow.
Controle de fluxo é o que separa um script de um pipeline de verdade
Copiar dados qualquer um faz. O que torna o Data Factory no Fabric uma ferramenta de orquestração séria é o controle de fluxo: a capacidade de o pipeline tomar decisões e repetir tarefas sem você duplicar atividade manualmente.
As construções que você mais vai usar:
- Atividades em sequência ou paralelo: você liga uma atividade à outra por setas de dependência, definindo o que roda em sucesso, em falha, ao completar ou ao pular.
- Condição (If): a atividade If Condition avalia uma expressão e ramifica o fluxo. Se a contagem de linhas copiadas for zero, dispare um alerta; caso contrário, siga para a transformação.
- Loop sobre itens (ForEach): itera sobre uma lista de tabelas, arquivos ou datas, executando o mesmo bloco para cada item. É o que permite copiar cinquenta tabelas com um pipeline parametrizado em vez de cinquenta pipelines.
- Loop condicional (Until): repete um bloco até uma condição ser satisfeita, útil para esperar um arquivo aparecer ou um processo externo terminar.
- Parâmetros e variáveis: deixam o pipeline genérico e reutilizável, alimentando filtros de data, nomes de tabela e caminhos dinamicamente.
Um exemplo que aparece em quase todo projeto: um pipeline lê uma lista de tabelas de origem, entra num ForEach e, para cada tabela, roda uma Copy Data incremental filtrando pela data da última carga. Cinco atividades resolvem a ingestão de dezenas de tabelas. Isso diferencia orquestração de gambiarra agendada.
Agendamento e gatilhos: o pipeline roda sozinho ou espera o mundo
Um pipeline que só roda quando alguém clica em "executar" não é automação. O Data Factory no Fabric oferece dois modos de disparo que cobrem a maioria dos cenários.
O primeiro é o agendamento por tempo. Você define uma programação: todo dia às 6h, de hora em hora, toda segunda-feira. É o modelo mais comum para cargas batch, que consolidam o dia anterior de madrugada para o relatório estar pronto quando a diretoria abrir o Power BI. Se o seu contexto é entregar dashboards confiáveis para a operação, o nosso guia de Power BI para empresas no Brasil mostra como esse ritmo de atualização se conecta à experiência do usuário final.
O segundo é o disparo por gatilho de evento. Em vez de esperar um horário, o pipeline reage a algo, tipicamente a chegada ou alteração de um arquivo em um storage. O dado aterrissou, o pipeline acorda e processa. Isso aproxima a arquitetura de um comportamento quase em tempo real sem manter um processo rodando o dia inteiro.
A tabela resume os modos e quando usar cada um:
| Modo de disparo | Quando usar | Exemplo típico |
|---|---|---|
| Agendamento por tempo | Cargas batch previsíveis | Consolidação diária às 5h da manhã |
| Agendamento frequente | Dados que mudam ao longo do dia | Atualização de estoque a cada hora |
| Gatilho por evento | Reação à chegada de dados | Arquivo cai no storage e dispara o processamento |
| Execução manual | Desenvolvimento e reprocessamento | Testar mudança ou recarregar um período |
O conselho de consultor: comece simples. A maioria dos clientes acha que precisa de tempo real e, ao medir, descobre que uma carga a cada hora resolve o problema com uma fração da complexidade e do custo de capacidade. Automatize pelo requisito real.
Um passo a passo mínimo para o primeiro pipeline
Para materializar tudo, veja como fica a construção de um pipeline de ingestão simples do zero:
- Crie o pipeline dentro do workspace do Fabric, no experience de Data Factory.
- Adicione uma atividade Copy Data e configure a conexão de origem, por exemplo um banco SQL de produção.
- Aponte o destino para uma tabela no Lakehouse, na camada bronze, guardando o dado bruto.
- Adicione um Dataflow Gen2 como próxima atividade, ligado por dependência de sucesso, para limpar e padronizar, gravando na camada silver.
- Insira uma condição que verifica se a carga trouxe linhas, ramificando para um alerta se vier vazio.
- Publique e agende o pipeline para rodar diariamente no horário desejado.
- Monitore as execuções pela aba de histórico, que mostra duração, status e onde falhou.
Esse esqueleto, Copy Data para trazer, Dataflow Gen2 para tratar, condição para validar e agendamento para automatizar, é o coração da maioria dos pipelines de ingestão que a gente entrega. O resto é volume, variação de origem e regras de negócio específicas, que é onde a experiência de engenharia de dados e de analytics avançado faz a diferença entre um pipeline que sobrevive e um que quebra no primeiro feriado.
Perguntas frequentes
Qual a diferença essencial entre pipeline e dataflow no Data Factory do Fabric? O pipeline orquestra e o dataflow transforma. O pipeline define a ordem das tarefas, o controle de fluxo com condições e loops, o agendamento e o tratamento de falha. O Dataflow Gen2 usa o Power Query para limpar e moldar o dado. Na prática eles trabalham juntos: o pipeline chama o dataflow como uma de suas atividades.
A atividade Copy Data pode transformar os dados durante a cópia? A Copy Data faz mapeamento de colunas e conversão básica de tipos, mas ela é projetada para mover o dado, não para aplicar regra de negócio. Transformação de verdade é papel do Dataflow Gen2 ou de um notebook. Copiar primeiro e transformar depois deixa o pipeline mais legível e fácil de manter.
Preciso de um gateway para ingerir dados de sistemas on-premises? Sim. Quando a origem está na rede local da empresa, um banco SQL Server interno, por exemplo, você precisa de um gateway de dados que faz a ponte segura entre o Fabric e o ambiente on-premises. Para fontes já em nuvem, a conexão é direta, sem gateway.
Dataflow Gen2 aguenta grandes volumes de dados? Aguenta volumes de médio porte com folga e produtividade alta. Para volumes muito grandes com lógica pesada, muitas vezes um notebook Spark no Lakehouse é mais eficiente do que o Power Query. A escolha depende do volume e da complexidade da transformação, e essa é uma decisão de arquitetura que vale discutir caso a caso.
Posso disparar um pipeline quando um arquivo chega, sem depender de horário? Pode. Além do agendamento por tempo, o Data Factory no Fabric permite gatilhos por evento, que reagem à chegada ou alteração de arquivos em um storage. É o caminho para processamento próximo de tempo real sem manter um processo rodando continuamente.
O Data Factory no Fabric substitui o Azure Data Factory? Para cargas já dentro do ecossistema Fabric, ele cumpre o papel com integração nativa ao OneLake, ao Lakehouse e ao Power BI. Cenários legados no Azure ainda podem justificar o Azure Data Factory tradicional, mas para novos projetos no Fabric o Data Factory nativo é o ponto de partida natural.
Onde isso te leva
Montar pipeline no Data Factory do Fabric não é difícil de começar e é fácil de fazer mal. O que separa um projeto que escala de um que vira dívida técnica é a disciplina de separar orquestração de transformação, parametrizar em vez de duplicar, e automatizar pelo requisito real de negócio. A ferramenta entrega o Copy Data, os Dataflows Gen2, o controle de fluxo e os gatilhos. A arquitetura que amarra tudo isso de forma sustentável é decisão de engenharia, não de clique.
Se você está estruturando a ingestão de dados no Fabric e quer fazer certo desde o primeiro pipeline, fale com a gente. A gente ajuda a desenhar a arquitetura, construir os pipelines e deixar o time autônomo para operar.
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